Tenho um filho com autismo, o que fazer?

Adolescência e idade adulta

 

Os sinais e sintomas que caracterizam as Perturbações do Espetro do Autismo determinam isolamento social e atividades ocupacionais geralmente sedentárias e solitárias que não promovem a saúde, o bem-estar ou a inclusão social. Quando avaliamos jovens com Autismo, sistematicamente verificamos o seguinte:

  • Estes jovens não possuem frequentemente uma rede social de suporte fora da família nuclear. Habitualmente têm poucos ou nenhuns amigos e, mesmo aqueles que os têm, não mantêm um contato regular e presencial. As suas relações sociais restringem-se aos contatos com a família, os colegas exclusivamente na escola ou no trabalho e relações virtuais online.
  • Habitualmente não praticam atividade física.
  • Com frequência apresentam sintomas depressão e ansiedade, secundárias às dificuldades académicas e sociais e têm muita dificuldade em implementar estratégias para lidar com a ansiedade, em particular o relaxamento.
  • São pouco autónomos nas atividades de vida diária importantes na vida adulta, como a confeção de refeições e a utilização de recursos comunitários (transportes, serviços públicos, etc.).
  • Praticamente não se dedicam a atividades de lazer fora de casa. Ocupam os seus tempos livres em casa, em atividades sedentárias e solidárias que não promovem a saúde, o bem-estar ou a inclusão social.
  • Muitos nunca tiveram qualquer experiência profissional.

Promover a autonomia

Um filho adolescente representa sempre um desafio, e esse desafio aumenta se o seu filho tiver autismo. Se deseja ajudar o seu filho com autismo a atingir o seu potencial e a conquistar a autonomia possível na vida adulta, deve estar preparado para lhe dar suporte, afeto e limites, evitando substituir-se a ele(a) nas tarefas que pode realizar e fornecendo apenas o suporte essencial e necessário naquelas em que mais precisar. Deve estar preparado para abdicar do perfeccionismo e da rapidez em muitas tarefas do dia-a-dia, ao mesmo tempo que com certeza se surpreenderá ao descobrir que muitas vezes a perseverança possibilita conquistas e muitas vezes leva à perfeição, sobretudo no caso do autismo.

Comece, desde a adolescência, a incentivar a autonomia nas suas atividades de vida diária (pessoais, domésticas e comunitárias) e na sua socialização. Deixamos algumas dicas para estimular a autonomia do seu filho adolescente/jovem adulto com autismo em ambiente familiar.

Na área da independência pessoal, o jovem com autismo pode exibir resistência aos cuidados de higiene ou ser obsessivo e gastar demasiado tempo nos seus cuidados de higiene e arranjo, o que pode acabar por interferir com a sua pontualidade na escola ou no trabalho. Os rapazes são muitas vezes pouco atentos à sua aparência física, descurando pormenores como as unhas, o cabelo e a barba e necessitando frequentemente de sinalização nesta área. Já as raparigas podem ser demasiado atentas e até obsessivas com determinados aspetos da sua aparência pessoal, como o cabelo, as unhas e a maquilhagem. Nesta área, o objetivo é atingir a autonomia possível nos cuidados pessoais e poderá estimular o seu filho(a) usando as seguintes estratégias:

  • Estabelecer rotinas de cuidados pessoais, fazer um “mapa” de atividades de higiene (escrito ou com imagens), incluindo perda de privilégios quando não cumpre as atividades ou o tempo limite a elas destinado;
  • Arrumar a roupa “estrategicamente” no armário, de forma a facilitar a combinação de cores e tecidos. Recorrer a etiquetas para saber onde arrumar as peças;
  • Estabelecer uma rotina de observação crítica ao espelho.

Na área das competências da vida diária, estes jovens habitualmente não executam tarefas domésticas com regularidade, receiam utilizar o forno e fogão, são desajeitados a utilizar facas para preparar refeições, não sabem confecionar refeições nem organizar uma lista de compras ou escolher os produtos no supermercado. Aqui, o objetivo será levá-lo a colaborar ou a assumir de forma independente as tarefas inerentes à manutenção de uma casa, incluindo limpeza da roupa e confeção de refeições. Poderá estimular o seu filho(a) usando as seguintes estratégias:

  • Atribuir responsabilidades regulares nas tarefas domésticas, como assegurar a limpeza do seu espaço próprio, fazer a cama, pôr e levantar a mesa, colocar loiça na máquina, lavar loiça, estender ou apanhar roupa, por exemplo;
  • Aproveitar todas as situações de vida diária que fornecem oportunidades contínuas para este trabalho;
  • Apoiar na execução das tarefas, retirando progressivamente o apoio;
  • Uma mera ida às compras para a despensa fornece um manancial de possibilidades para treinar a autonomia: desde elaborar a lista de compras, procurar os produtos, escolher a melhor relação preço/qualidade, interagir com funcionários na loja, verificar trocos, etc.

Na área da utilização dos recursos comunitários, estes jovens têm frequentemente dificuldade em deslocar-se em transportes públicos em percursos novos e dificuldade em utilizar serviços comunitários, devido às dificuldades na comunicação e na resolução de problemas. O objetivo será utilizar transportes públicos em locais familiares e novos e utilizar serviços comunitários variados com autonomia e eficácia. Poderá adotar as seguintes estratégias:

  • Aproximações sucessivas, para treinar a autonomia nos transportes públicos;
  • Antecipar percursos, transbordos, preços, possíveis imprevistos durante o percurso e formas de lidar com eles;
  • Incentivar o jovem a tratar dos seus assuntos e a fazer os seus pedidos no comércio e não fazê-lo por ele;
  • Dramatizar os diálogos necessários para requerer um produto ou serviço;
  • Antecipar obstáculos e formas de os ultrapassar.

No domínio da autodeterminação e autorrepresentação, os jovens com PEA demonstram frequentemente dificuldade na realização de escolhas e na resolução de problemas, devido às dificuldades na “imaginação” (“tríade autística” de Lorna Wing). Aqui, o objetivo é a emancipação e a autorrepresentação e para tal poderá estimular o seu filho(a) usando as seguintes estratégias:

  • Para promover a autorrepresentação, ele(a) deverá compreender as Perturbações do Espetro do Autismo e saber explicar a sua perturbação aos outros (incluindo necessidades e capacidades);
  • Incentivar a tomar decisões restringindo o leque de alternativas nas escolhas, de modo a facilitar as mesmas;
  • Ajudá-lo(a) a analisar vantagens e desvantagens de cada alternativa.

Na área do lazer e tempo livre, estes jovens habitualmente restringem a ocupação dos tempos livres aos seus interesses obsessivos, dentro de casa. Frequentemente, estes interesses constituem atividades sedentárias, que não promovem o contacto social e que são pouco diversificadas. Nesta área, o objetivo será ocupar os tempos livres de forma ativa, dinâmica, diversificada e saudável, promovendo a inclusão social. Poderá utilizar as seguintes estratégias:

  • Restringir o tempo de acesso aos interesses obsessivos, sem nunca o proibir, pois apesar de limitarem a atividade e participação do seu filho(a) na sociedade, também constituem poderosas ferramentas de gestão do stress do seu filho(a);
  • Ajudar na procura de atividades de tempos livres na zona de residência;
  • Incentivar o envolvimento em atividades da comunidade, como os grupos desportivos e culturais, associações locais, teatro amador, etc.;
  • Propor voluntariado: pesquisar bolsa do voluntariado e averiguar atividades ou associações que possam despertar o interesse do jovem/adulto.