Tenho um aluno com autismo, o que fazer?

Adolescência e idade adulta

Antes de “ser autista” ou de “ser asperger”, o seu aluno com PEA é uma pessoa, com características de personalidade únicas sobre as quais as manifestações do espetro inscrevem perfis de funcionamento muito diversificados. A única forma de ajudar é encarar o aluno como um ser único, com necessidades especiais de apoio, mas que variam de caso para caso. Todos aos alunos com PEA têm direito à educação inclusiva até aos 18 anos, devendo desde cedo começar a preparar a sua transição para a vida adulta, independentemente de usufruir ou não de um Plano Individual de Transição. No sentido de preparar a transição do jovem para a vida pós-escolar, o trabalho da equipa docente deve promover a capacitação e a aquisição de competências sociais necessárias à sua inserção familiar e comunitária.

Para os alunos com PEA que terminam a escolaridade obrigatória, existem as seguintes alternativas de formação/ocupação:

  • Ensino Superior;
  • Respostas sociais habitualmente inseridas em estruturas de reabilitação como as CERCI’s e as APPACDM’s, nomeadamente Formação Profissional Adaptada e Centros de Atividades Ocupacionais (C.A.O.);
  • Emprego apoiado.

Ensino Superior

No que respeita ao acesso ao ensino superior, de acordo com as Orientações do Júri Nacional de Exames, a partir do ano letivo 2013/2014, para o 11.º ano, e 2014/2015, para o 12.º ano, os alunos com PEA que pretendam prosseguir estudos no ensino superior têm de realizar os exames finais nacionais correspondentes à avaliação sumativa externa do seu plano de estudos, não sendo considerados, nesse caso, exames a nível de escola. Assim, os alunos com PEA podem requerer adaptações nas condições de exame, mas têm de realizar obrigatoriamente os exames finais nacionais. Como exemplos de adaptações previstas que podem ser úteis para alunos com PEA, são de referir: tolerância para além dos 30min, realização das provas em sala à parte e ditar as respostas da prova. No caso dos alunos com PEA e dislexia, poderá ser aplicada a Ficha A, emitida pelo Júri Nacional de Exames, “Apoio para classificação de provas de exame nos casos de dislexia” e a leitura de enunciados.

Apesar de ainda não existir legislação nacional que garanta a igualdade de oportunidades a estes alunos no ensino superior, o aumento da escolaridade obrigatória para os 12 anos de escolaridade e/ou 18 anos de idade, leva a que cada vez mais alunos com PEA cheguem ao ensino superior. Assim, muitos estabelecimentos de ensino superior dispõem de regulamentos específicos para alunos com necessidades educativas especiais que comtemplam os alunos com este tipo de necessidades.

No seu sítio na internet, o Grupo de Trabalho para o Apoio a Estudantes com Deficiências no Ensino Superior (GTAEDES) inventaria os apoios existentes para alunos com necessidades educativas especiais no ensino superior.

Formação Profissional Adaptada e Centros de Atividades Ocupacionais

A Formação Profissional Adaptada será adequada para os seus alunos com PEA nível 2 e comprometimento intelectual ligeiro concomitante. Trata-se de uma resposta social que propõe percursos formativos adaptados a necessidades educativas especiais (objetivos mínimos). Esta resposta social inclui formação em posto de trabalho, apoio à colocação e acompanhamento pós-colocação.

Contudo, a oferta formativa é ainda limitada, constando 22 referenciais no Catálogo Nacional de Qualificações (http://www.catalogo.anqep.gov.pt/).

No que diz respeito aos Centros de Atividades Ocupacionais, constituem respostas sociais adequadas aos seus alunos com PEA nível 2 a 3 e comprometimento intelectual concomitante moderado a severo. Trata-se de uma resposta social que presta serviços em 8 áreas:

1. Atividades estritamente ocupacionais - atividades/tarefas geralmente realizadas no âmbito do processo de transformação de matérias-primas em produtos finais, que visam a manutenção e o desenvolvimento de competências até ao máximo potencial do utente (p.ex., cerâmica; tecelagem).
2. Atividades socialmente úteis – atividades/tarefas geralmente realizadas no âmbito do processo de transformação de matérias-primas em produtos finais ou da prestação de serviços, dotadas de utilidade social, que visam a manutenção e o desenvolvimento de competências até ao máximo potencial do utente e a facilitação da possível transição para programas de integração socioprofissional (p.ex., lavagem de veículos; receção e atendimento).
3. Atividades de desenvolvimento pessoal e social – atividades e dinâmicas que visam promover as competências de relacionamento interpessoal e autodeterminação/ autonomia, o bem-estar e a cidadania e participação social, até ao máximo potencial do utente (p.ex., higiene pessoal; participação em atividades sociais; atividades académico-funcionais; educação para os afetos; utilização dos serviços da comunidade).
4. Atividades lúdico-terapêuticas – atividades e dinâmicas que geralmente implicam a ativação físico-funcional e a estimulação sensorial que visam promover o bem-estar, nomeadamente físico, até ao máximo potencial do utente (p.ex., expressão dramática; fisioterapia; educação física).
5. Refeições
6. Apoio de 3ª pessoa
7. Administração de terapêutica
8. Transportes

Todos os utentes desta resposta social têm um Plano de Desenvolvimento Individual que, partindo de um processo de avaliação inicial das necessidades e potenciais (interesses, motivações, capacidades e competências), visa o envolvimento do próprio e/ou da família com os profissionais e a comunidade envolvente, para estabelecer um conjunto de estratégias de desenvolvimento pessoal, social e da autonomia.

Emprego Apoiado

Para preparar o seu aluno para a transição para o emprego, poderá abordar as seguintes áreas:

  • Consciência da perturbação – ajudando o(a) aluno(a) a compreender as PEA e as suas implicações para ele(a), em especial aquelas relacionadas com o trabalho.
  • Desenvolvimento da autoconfiança - promovendo a confiança e a autoestima, estimulando o(a) aluno(a) a reconhecer as suas capacidades e qualidades e a encarar com otimismo os obstáculos à obtenção de emprego e ainda desenvolvendo estratégias para a procura e manutenção de emprego.
  • Tomada de decisão ocupacional – ajudando o(a) aluno(a) a estabelecer objetivos de ocupação realistas.
  • Comportamento e atitude profissional - ajudando o(a) aluno(a) a compreender as regras implícitas no local de trabalho.
  • Competências de comunicação - desenvolvendo competências de comunicação essenciais na procura de emprego e no local de trabalho.
  • Competências de entrevista - desenvolvendo competências para que as entrevistas de seleção bem-sucedidas.

Promover a autonomia

Deixamos algumas dicas para estimular a autonomia do seu aluno(a) adolescente/jovem adulto com autismo na transição para a vida adulta em contexto escolar, em quatro áreas essenciais: 1) comunicação; 2) competências sociais; 3) competências académicas funcionais; e 4) trabalho.

Na área da comunicação, estes alunos apresentam frequentemente dificuldades na compreensão de instruções complexas e em várias etapas e dificuldades na utilização e compreensão da comunicação não-verbal. Este último é, aliás, um dos critérios de diagnóstico das PEA. Além disso, estes alunos frequentemente usam poucos gestos e a sua comunicação não-verbal é pobre ou desadequada (por defeito ou por excesso).

Na área da comunicação verbal, o objetivo é simplificar ou utilizar meios alternativos e amplificadores. Poderá recorrer às seguintes estratégias:

  • Utilizar instruções claras e simples e frases curtas;
  • Dar tempo para elaborar a resposta (não apressar);
  • Clarificar para verificar se compreendemos o que disse;
  • Repetir a mensagem de forma diferente (respeitando tempo de latência de resposta, mais longo, para não quebrar o raciocínio);
  • Perguntar se compreendeu a mensagem, pedindo para repetir;
  • Utilizar imagens, desenhos ou fotografias;
  • Manter a comunicação sobre conceitos concretos (evitar conceitos abstratos).

Na área da comunicação não-verbal, o objetivo é ajudar o(a) aluno(a) a compreender a importância deste tipo de comunicação e a interpretar os índices não-verbais na comunicação face a face. Algumas estratégias poderão revelar-se úteis:

  • Ensino formal;
  • Chamar a atenção para a linguagem não-verbal e atribuir significados às expressões faciais, gestos, postura corporal, etc.;
  • Utilizar recursos audiovisuais como jogos, filmes e situações do quotidiano.

O défice nas competências sociais é outro dos critérios de diagnóstico deste espetro de perturbações. Os alunos com PEA apresentam dificuldades em iniciar, manter e terminar conversações, em mudar de tema, em fazer e manter amizades, em interpretar pistas sociais, em tomar e ceder a vez nas conversas. Nesta área, o objetivo é desenvolver competências para o estabelecimento e manutenção de uma rede social de suporte (contacto com a família, estabelecer e manter amizades, conhecer as regras sociais). As seguintes estratégias poderão ajudar:

  • Didática sobre comportamentos adequados e desadequados, sobre o significado da comunicação não-verbal, sobre o espaço interpessoal e os níveis de relacionamento;
  • Feedback construtivo e imediato face a comportamentos adequados e desadequados por parte do jovem;
  • Modelagem de comportamentos alternativos;
  • Dramatização dos comportamentos adequados;
  • Podem ser criadas situações sociais fictícias ou ser utilizadas situações que ocorreram, para analisar a adequação dos comportamentos exibidos e treinar os comportamentos desejáveis.

No domínio das competências académicas funcionais, os alunos com PEA nível 3 e comprometimento intelectual concomitante têm dificuldades generalizadas de aprendizagem, enquanto os alunos com PEA nível 1 e sem comprometimento intelectual concomitante têm, por vezes, associadas dificuldades de aprendizagem específicas (por exemplo, disgrafia, dislexia e discalculia). Nesta área, o objetivo é manter as aquisições em termos de competências de escrita, leitura e cálculo essenciais no dia-a-dia. Poderá recorrer às seguintes estratégias:

  • Estimular a leitura regular de notícias;
  • Treinar o manuseamento do dinheiro e a gestão do mesmo;
  • Escrever recados e mensagens simples, cartas de resposta a anúncios e redigir o Currículo.

Finalmente, no domínio do trabalho, as desadequações do comportamento social, a dificuldade em adaptar-se às mudanças, em trabalhar sob pressão e em executar várias tarefas ao mesmo tempo, restringem fortemente a empregabilidade destes alunos, apesar de também apresentarem qualidades manifestamente válidas para o mercado de trabalho (empenhados, trabalhadores, responsáveis, honestos, de confiança, assíduos, pontuais, apreciam tarefas rotineiras). As estratégias nesta área visam, no caso dos alunos com PEA nível 1, obter e manter emprego em mercado aberto de trabalho. Poderá ajudar o(a) aluno(a), através destas estratégias:

  • Familiarizar com as fontes de emprego, currículos e questões comuns nas entrevistas de seleção;
  • Apoiar na pesquisa de emprego, elaboração do Curriculum Vitae, cartas de resposta a anúncios e cartas de candidatura espontânea;
  • Treinar competências para entrevistas de seleção e, se necessário, acompanhar durante as mesmas;
  • Sensibilizar as entidades empregadoras para a responsabilidade social e informar sobre os apoios ao emprego na área da reabilitação profissional;
  • Formar/informar os colaboradores das entidades empregadoras sobre as PEA.