PHDA no feminino

Não à discriminação de género

Quando falamos de Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção, a tão badalada PHDA, corremos o risco de suscitar um debate acesso. De um lado, aqueles que atacam, de outro, aqueles que defendem o conceito e diagnóstico de PHDA. A discussão pode mesmo tornar-se calorosa. E corremos outro risco, o de sermos injustos.

O diagnóstico nem sempre é claro. Será uma questão associada à (falta de) educação ou uma dificuldade intrínseca (neurológica) da criança em manter-se sossegada e concentrada? Há influência de fatores emocionais que estão a ser camuflados? O quadro complica-se um pouco mais quando falamos das raparigas, uma vez que a dimensão mais visível da PHDA, a hiperatividade, está maioritariamente reservada ao sexo masculino.

Também as raparigas podem sofrer desta perturbação, mas porque tendem a ter um comportamento mais silencioso, é mais provável que nos escape. E é aqui que reside a injustiça. Uma rapariga pode passar anos até ser notada e vista de uma outra perspetiva, sendo prejudicada em diversos contextos, como por exemplo no seu percurso académico.

Todos nós (família, professores, amigos...) podemos considerá-la como pouco empenhada, pouco comprometida com as suas obrigações escolares, familiares e sociais mas, na realidade, ela pode sofrer de PHDA com particular ênfase da dimensão da atenção. E nestes casos é profundamente injusto.

É verdade que a PHDA é uma perturbação conveniente, “se ela consegue prestar atenção à televisão ou concentrar-se sozinha horas a fio nas suas brincadeiras, porque não consegue fazer os TPC´s?”. Mas é igualmente verdade que as características da PHDA preveem também esse comportamento: uma enorme dificuldade em manter-se concentrada e dedicada a tarefas de menor interesse, tarefas monótonas e durante um período de tempo prolongado, com facilidade em ausentar-se e em dispersar, mesmo que por vezes tenha ajuda e supervisão de um adulto.

Entre os sinais de alarme, perante uma criança saudável, podemos considerar um comportamento continuado em que parece que está a “sonhar acordada”, que nunca está presente, em que mesmo situações do seu agrado são prejudicadas pela sua desatenção e dificuldade em mobilizar-se para a tarefa. E ainda dificuldades como: não conseguir tomar nota das suas obrigações, perder/esquecer brinquedos e objetos que lhe são caros, não dar pelo telefone que está a tocar ao seu lado, esquecer o aniversário da melhor amiga, ser indiferente ao meio que a rodeia...

É um facto que a PHDA se pode tornar num diagnóstico útil. Seja para justificar os comportamentos dos filhos, sejam os de pais ou professores. Importa, no entanto, perceber que a PHDA não se caracteriza apenas pela agitação motora, mas sobretudo pela dificuldade de atenção (mais associada às raparigas).

Como estamos a falar de pessoas e de uma perturbação do desenvolvimento não podemos nem conseguimos usar uma linguagem binária (tem / não tem PHDA). Importa conhecer a sua história e desenvolvimento para que possamos diminuir aquilo que a torna menos competente face ao seu potencial. É importante perceber e analisar todas as dimensões para agir em seu benefício.

Temos que fazer um esforço por ir buscar e compreender aquela rapariga que passa despercebida, que por vezes até tem um comportamento bizarro e parece alheia ao que a rodeia. Uma intervenção atempada facilita a sua própria eficácia, podendo constituir-se como uma mais-valia pessoal, familiar, social e académica, diminuindo o impacto (muitas vezes emocional) sentido pela criança e pelos demais.

Luís Ferraz, Neuropsicólogo no CADIn