Adolescência: O que os pais querem dos filhos e o que os filhos querem dos pais

A adolescência é a fase de desenvolvimento mais temida pelos pais e a que normalmente suscita mais desafios, conflitos e ruturas. Das queixas mais comuns dos pais, estão a rebeldia, o mau humor e a pouca recetividade a conselhos. Ou o facto dos adolescentes quererem passar o máximo de tempo possível com amigos, a pouca responsabilidade, desinteresse no estudo, a preguiça ou o desaprumo. Na maioria dos discursos de queixas parentais, iguais ou com variações, existe como pano de fundo uma grande dificuldade em comunicar. Em compreender. E, nos casos mais difíceis, em acolher. E é aqui que a adolescência se pode tornar verdadeiramente complicada.

Na verdade, a adolescência nem sempre é complicada. Existem mudanças físicas e psicológicas, alterações de humor, desafios de crescimento. O filho autonomiza-se dos pais, passa a centrar a sua vida nos amigos e o mundo exterior torna-se mais atrativo do que a casa. É necessário construir uma identidade própria, o que por vezes implica distanciar-se dos pais, correr riscos, fazer experiências. Quer-se desesperadamente ser igual aos outros mas também se quer ser único e especial. Às vezes, a diferença é subtil mas, se olharmos com olhos atentos lá veremos o toque individual de cada um dentro dos códigos e da imagem do grupo de pertença. Sonham-se muitos sonhos mas por vezes falta energia e disciplina para os tentar realizar. Abraçam-se causas, defendem-se ideais, os quais raramente são os da geração anterior, logo nem sempre compreendidos pela família. Vive-se intensamente, às vezes no limite, procuram-se sensações fortes. Quer-se muitas coisas mas às vezes só se quer estar sozinho e em paz. Quer-se ser compreendido mas muitas vezes são os próprios que não se compreendem.

Para a maioria dos pais, a grande dificuldade da adolescência são os riscos. Não é possível crescer-se bem e saudável sem correr riscos porque crescer é exatamente sair do espaço seguro da casa e da família e aventurar-se no mundo. Até à adolescência, é possível (pelo menos teoricamente) manter os filhos em segurança, controlar o seu mundo, tomar todas as decisões relevantes. A partir de certa idade, os riscos são inevitáveis e resta aos pais confiar que o seu filho recebeu as ferramentas e tem os skills certos para saber fazer boas escolhas e tomar decisões conscientes. Nem sempre é fácil confiar, porém. Porque às vezes as mudanças são tantas e tão súbitas que os pais quase não reconhecem a pessoa nova que é o seu filho. Porque outras vezes os filhos não têm realmente a autonomia, a responsabilidade e a maturidade necessária para escolherem e decidirem. Porque é mais tentador limitar, reter, bloquear o crescimento. Porque ganhar asas por vezes é confundido com ir para longe e, para muitos pais, é difícil imaginar o ninho vazio. Que os seus filhos, que até aí foram todo o seu mundo, agora são eles próprios o mundo de alguém. Ou que querem ganhar o mundo. Por isso, pode-se dizer que o que a maioria dos pais quer para os seus filhos adolescentes é segurança e que as mudanças sejam as necessárias mas não afetem os laços. Que os filhos continuem a precisar deles. Que cresçam bem, com objetivos, sonhos e aspirações. Que tenham boas notas, sejam bons alunos, estudem para entrar numa boa universidade e num curso respeitável. Que tenham bons amigos, solidários e leais, e ao mesmo tempo com juízo. Que vão a festas e se divirtam mas bebam pouco e evitem as drogas. Que se apaixonem e namorem mas não acabem de coração partido. Em suma, que vivam vidas perfeitas e intocadas, sem problemas nem dificuldades.  

Mas o que será que querem os filhos?

A adolescência é uma época em que normalmente se quer muita coisa mas, ao mesmo tempo, não se sabe bem o que se quer. E, com frequência, tem-se medo de querer. Medo de querer e não conseguir, medo de querer e não ser suficientemente bom para lá chegar e até medo de querer coisas diferentes das que os pais querem que eles queiram. Às vezes é mais fácil e seguro simplesmente não se querer nada e viver-se uma vida apática, escondidos dos sonhos e dos desafios. Porque, por detrás do medo, está quase sempre o receio de falhar e de desiludir. Normalmente os pais.

Os filhos querem muitas coisas, dependendo de quem são e para onde vão, mas raramente querem perfeição. Não querem trazer acorrentados os sonhos e as aspirações dos pais, dispensam a pressão de ser perfeitos, assustam-se com as expetativas. Querem tempo e espaço para se descobrirem e perceberem quem são e esse processo envolve quase sempre erros, falhas e insucessos. Querem ter nos pais um colchão confortável onde cair e não setas apontadas em direção às suas fraquezas. Não querem ter que cumprir objetivos que não são seus, fazer conquistas que não desejaram, viver uma vida que não planearam. Ao mesmo tempo, querem ser eles próprios e construir o futuro que lhes faz sentido. E para isso precisam de apoio, de incentivo, de serem encorajados e estimulados a ir. Porque só se consegue ir verdadeiramente longe quando se sabe que há uma base forte e segura para onde se pode sempre voltar. Os pais são casa e coração, são afetos e pontes, são o ponto inicial de cada um e nunca deixam de ir com os filhos, vão estes onde forem.

Efetivamente, a grande demanda da adolescência é a construção de uma identidade própria e o que a generalidade dos adolescentes procura é aceitação. Dos pares, dos pais, dos professores, do mundo. De toda a gente e de ninguém. Muitas vezes têm formas retorcidas e até distorcidas de expressar essa ânsia de aprovação. Respondem mal. Contrariam de propósito. Querem coisas perigosas, inauditas, aparentemente sem sentido. Correm riscos. Chocam. Adotam visuais marcantes, ouvem música diferente, abraçam causas que as gerações anteriores não conseguem compreender. Podem ser intensos e apaixonantes mas também imprudentes e irresponsáveis. Irritam, exasperam, levam os pais ao desespero. Na verdade, estão quase sempre só à procura de ser aceites. De saber que são gostados, sejam quem forem, escolham o que escolherem, façam o que fizerem. Fogem da perfeição e dos moldes onde sentem que devem encaixar para se procurar e testam o amor dos pais, desafiando-os a confiar, a aceitar, a seguir.

Ter a validação dos pais, sentir que se é gostado e apreciado por se ser quem é e não ter que se ser o que os outros querem que sejamos, é um tesouro valioso para qualquer adolescente. De diferentes formas, com maior ou menor facilidade, através do confronto ou da resignação, com medo ou sem medos, o que os adolescentes procuram dos pais é simplesmente amor. O que não é diferente do que os pais procuram dos filhos.

Que nunca faltem pontes que os liguem.

Sandra Farropas Sobreira – Psicóloga Educacional do CADIn  
CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão
Texto publicado pelo Público a 28/08/2022

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