NÃO SOLTES A POC* QUE HÁ EM TI


Lavar as mãos. Com frequência. Durante pelo menos 20 segundos.

Lembram-nos repetidas vezes ao longo do dia que lavar as mãos é das medidas mais importantes que podemos tomar para evitar a propagação do vírus. E, por vezes, em tom de brincadeira, alguém diz para soltarmos a POC que há em nós. No entanto, não sei se a Perturbação Obsessiva Compulsiva seja assim tão vantajosa neste período. E duvido que quem tenha uma POC se sinta mais protegido. Antes pelo contrário.

Podemos e devemos estar mais alerta e vigilantes relativamente à nossa higiene e, em particular, das mãos. É essencial ter os devidos cuidados e evitar tocar em superfícies potencialmente contaminadas e lavar bem as mãos antes de sair de casa, quando chegar a casa e evitar tocar na cara. Mas a vida, felizmente, é bem mais que isto. É família, amigos, estudo, trabalho, descanso, exercício, rotina, criatividade, emoção. E ainda bem que assim o é, ou estes dias seriam muito mais difíceis para todos nós.

No entanto, para uma pessoa com Perturbação Obsessiva Compulsiva, a vida pode ser apenas isso. Uma presença constante e angustiante de pensamentos, que podem ser relativos à higiene, à sujidade e à possibilidade de contaminação. E a única forma de aliviar estes pensamentos, frequentemente entendidos pelas próprias pessoas como exagerados e irrealistas, é fazer alguns gestos, neste caso lavar as mãos, tomar banho ou trocar de roupa. E estes pensamentos e gestos ocupam de tal forma o dia-a-dia da pessoa que compromete tudo o resto. As relações, o estudo, o descanso, a liberdade. Não sobra tempo para muito mais. E de tanto lavar, de forma compulsiva, exagerada e imparável, a própria saúde é posta em causa.

Por isso, esta pandemia pode ser um desafio ainda mais duro para quem enfrenta esta doença mental e que luta todos os dias para encontrar um equilíbrio entre o controlo dos sintomas e o controlo do risco de contágio. Algumas estratégias que podem ajudar incluem limitar o tempo de exposição aos media, manter a rotina, descansar, fazer exercício e manter o contacto com os outros. É importante que as crianças sejam tranquilizadas pelos seus cuidadores relativamente à sua segurança e saúde, visto que o que aquilo que cuidadores transmitem influencia a forma como as crianças vivenciam este período.

Seja responsável, cuide de si e dos outros.
E, quando estiver a ser demasiado difícil, conte com os profissionais de saúde para ajudar. Também estamos cá para isso.

 

Ana Teresa Prata
Pedopsiquiatra do CADIn