O MEU FILHO NÃO COME! – DESAFIOS NA ALIMENTAÇÃO DOS BEBÉS

O momento em que nos tornamos PAIS, trás, entre outras, uma grande preocupação: “estará o nosso filho a comer o suficiente?!”. Quer numa fase inicial em que o bebé só ingere leite (amamentação ou pelo biberão), quer nas etapas seguintes em que são introduzidos outros tipos de alimentos, a preocupação recorrente dos pais é se o seu filho está a ingerir as quantidades de alimento necessárias para crescer de forma saudável.

As dificuldades na alimentação aparecem sempre - quer seja na pega da mama, quer na introdução dos alimentos pastosos ou sólidos - e a maior parte das famílias acaba até por não relatar as dificuldades que encontra a este nível. Mas, e quando as coisas correm de tal forma que os pais sentem mesmo que não conseguem alimentar os seus filhos?

Nestes casos, a preocupação com a alimentação da criança começa a dominar as dinâmicas familiares durante as refeições. Relatos de mães que choram só de pensar na dor que vão sentir quando dão de mamar ao seu bebé, de pais que entram quase em pânico porque está a chegar a hora do jantar, de crianças que choram só de olhar para a “cadeira da papa” são cada vez mais frequentes. Um momento que devia ser de partilha e de prazer (a refeição em família ou o amamentar do bebé), transforma-se num momento angustiante, que acaba por trazer experiências e memórias menos positivas para os bebés/crianças – e famílias - podendo até condicionar o seu comportamento alimentar.

A alimentação, desde a ingestão apenas de leite (sucção) à mastigação de alimentos mais complexos, pode envolver alguns desafios. A criança pode não aceitar logo a colher, pode não querer logo a papa, pode até ficar um pouco nauseada quando prova as sopas pela primeira vez. Não nos podemos esquecer de que estamos a introduzir novas consistências, novos sabores e até uma forma diferente de comer. Se há crianças que facilmente se adaptam, outras necessitam de um pouco mais de tempo para se habituarem a estes novos padrões, mas todas acabam por conseguir. Porém, existem crianças que mantêm as dificuldades, que continuamente recusam determinadas consistências e que continuamente se engasgam ou vomitam durante a refeição.

De que bebés e crianças estamos a falar? Que problemas podem estar presentes? Do nascimento até aos 4/6 meses podem ser, simplesmente, bebés que se engasgam frequentemente a mamar, que não conseguem acabar uma mamada porque adormecem constantemente, que têm refluxo gastroesofágico, que têm tosse durante ou imediatamente após a mamada e mães que têm muita dor quando amamentam. Mais tarde, depois da introdução da alimentação complementar podem ser bebés/crianças que estão constantemente nauseados ou que vomitam às refeições, que choram muito durante a refeição, que recusam a alimentação ou que são muito seletivos nos alimentos, que cospem o alimento, que se engasgam frequentemente, que não engolem o alimento ou que não gostam de se sentir sujos.

O mais importante, perante estes comportamentos, é manter a calma e continuar a tentar criar um ambiente positivo e saudável às refeições. Os pais podem ir tentando introduzir os alimentos rejeitados, mas sempre sem obrigar a criança a comer e tendo a noção de que ela pode recusar um alimento algumas vezes até se habituar à nova consistência ou sabor. É importante também que a criança mexa nos alimentos, que sinta com as mãos o que vai experienciar na boca. Também deve ser incentivada a adoção de uma rotina em torno da refeição e a preparação de pratos que sejam agradáveis aos olhos (sem misturar alimentos, por exemplo).

A recusa alimentar persistente pode trazer consequências a nível nutricional e a nível de desenvolvimento motor oral e podemos até estar perante crianças em risco de desenvolverem uma perturbação da alimentação.

Nos casos em que as dificuldades relatadas persistem ou se agravam progressivamente, os pais devem procurar ajuda profissional. Existe um conjunto de profissionais que, em equipa multidisciplinar (pediatra, terapeuta da fala, terapeuta ocupacional, nutricionista…), pode ajudar com a avaliação da situação e a introdução de estratégias de intervenção na criança e na família.

 


Catarina Baleia
Terapeuta da Fala

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão.

Texto publicado pelo Público a 13/04/2019