QUANDO O MEU IRMÃO É DIFERENTE

 

A vida familiar é um dos grandes desafios com que nos deparamos, mais ainda em tempo de quarentena. Tentamos gerir frustrações, ansiedades, manter rotinas e levar a vida dentro “da normalidade”, tentamos que todos se dêem bem.

E a relação entre irmãos, será que também é tida em consideração? Esta é uma relação de troca, aprendizagem, imitação, mas também de competição pela atenção dos pais. Torna-se, em tempos de isolamento, num teste de perseverança, flexibilidade e capacidade de ajustamento. Pela natureza da relação, pela proximidade física e emocional, os irmãos conhecem-se como mais ninguém. Sabem o que dizer ou fazer para que o outro se sinta atacado, mas também são os primeiros a ter o gesto de proteção sobre o outro. Agora que estudam em casa, as diferenças individuais são mais visíveis e a competitividade torna-se maior.

E se na fratria existe um irmão diferente? Um irmão com uma perturbação que influencia a aprendizagem? Esta ambivalência de sentimentos mantém-se e pode até acentuar-se. Com base na literatura, sabemos que estas relações permitem vivenciar sentimentos tanto positivos como negativos. E quando os irmãos estão 24 sobre 24 horas juntos? O que muda? Há claramente uma maior percepção das necessidades do outro e com isto surgem sentimentos como o medo, a vergonha e a culpa. 

“E se isto acontecer comigo?” Esta inquietação é influenciada, quer pela gravidade do problema, quer pela posição etária na fratria. Irmãos mais novos tendem a ter mais frequentemente este tipo de receio, que também pode manifestar-se pelo medo associado ao facto de crescer e poder adquirir características ou comportamentos semelhantes aos do irmão. 

“O que é que os colegas vão pensar?” Outro sentimento comum é a vergonha. As aulas online podem expor as dificuldades ou comportamentos por vezes bizarros que algumas crianças apresentam. Esta situação é típica sobretudo na adolescência, pelo que se torna importante comunicar com a criança ou jovem, permitindo que tenha espaço para o sentir, e ao mesmo tempo tentar modelar um comportamento de aceitação mais apropriado.

“Não é justo que ele tenha dificuldades e eu não”. Algumas das preocupações que surgem relacionadas com a culpa são a possível responsabilidade pelo problema, a culpa por não ser o próprio a ter um problema, por sentir que tem mais competências, por ocasionalmente ter sentimentos negativos face ao irmão ou por existirem conflitos entre os dois.

Crianças com necessidades educativas especiais precisam de mais atenção por parte dos pais, sobretudo nesta experiência de tele escola/escola virtual. Por isso mesmo, os irmãos sem dificuldades são forçados a ser mais autónomos, acabando por vezes por experienciar sentimentos de isolamento, solidão ou perda.
Para ultrapassar estas questões, é fundamental que os pais comuniquem de forma eficaz com os filhos. Tendo sempre em conta a idade e desenvolvimento da criança, é fundamental incluir o filho que não tem dificuldades no processo relacionado com o irmão. É importante responder às suas questões, tentar antecipá-las e fornecer informação objetiva sobre o problema. É importante normalizar e aceitar os sentimentos expressos.

Mas também podem surgir sentimentos positivos, configurando oportunidades únicas para o desenvolvimento socio-emocional. Estes irmãos são muitas vezes mais maduros. Aceitam o aumento da sua responsabilidade criando uma visão diferente de si e do mundo. Vêem-se como socialmente mais competentes e mais tolerantes. São os primeiros a valorizar as conquistas dos irmãos com dificuldades. São crianças e jovens que revelam ainda uma grande capacidade de encontrar estratégias de autocontrolo em situações desafiantes. Finalmente, tal como em qualquer outra relação de irmãos, existe um enorme sentimento de lealdade entre si.

Agora que estamos todos mais focados nas nossas famílias, nas nossas relações mais próximas, vamos trabalhar a resiliência, a aceitação e a tolerância dentro da fratria e cultivar o bem-estar na família.

 

Carolina Viana - Psicóloga Clínica
Ricardo Lopes - Neuropsicólogo


CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 03/05/2020