MÃE, PAI! ESTÁ ESCURO…TENHO MEDO!

 

É comum a criança começar a ir para o quarto dos pais, no meio da noite e pedir socorro por causa do lobo mau escondido debaixo da cama.

As crianças, na sua maioria, manifestam medos transitórios, típicos de determinada idade e que se dissipam naturalmente ao longo do seu desenvolvimento. Ter medo é inerente à natureza humana e é uma resposta frequente e adaptativa perante ameaças reais ou imaginárias.

Sensivelmente, aos três anos de idade, quando a criança inicia a fase da imaginação, começam a surgir os primeiros medos, habitualmente relacionados com monstros, fantasmas, estar sozinho ou do escuro. É geralmente com esta idade que começa a surgir ou a intensificar-se o medo de dormir sozinho, sendo à noite e no escuro que as suas fantasias e receios, provenientes da exploração do imaginário, adquirem formas variadas e assustadoras. Nestes momentos de angústia, a solução mais fácil e rápida é correr para a cama dos pais para se sentirem seguros.

O que parece ser um pedido tão inofensivo poderá provocar alterações psicológicas para a criança e para a relação afetiva do casal. A necessidade de ter companhia para dormir possibilita a construção de um padrão de comportamento de exagerada dependência dos pais com impacto na sua autonomia.
Aprender a dormir sozinho e permanecer a noite completa no seu quarto é uma das importantes conquistas no desenvolvimento de qualquer criança e que o ajudará a ser um adulto mais seguro e confiante.

É fundamental ensinar o seu filho a lidar com o medo durante a infância para se preparar convenientemente para o futuro e, de acordo com a literatura, existem algumas estratégias que poderão ajudar os pais a apoiar o filho conquistar esta autonomia.

Ouça atentamente e respeite aquilo que a criança tem para lhe dizer.

Aquilo que para o adulto poderá parecer insignificante, para a criança tem um impacto diferente, o que a assusta é real e tem sentido. Ao perceber que consegue falar sobre os seus medos e que o adulto tem disponibilidade para a ouvir, passa a conseguir controlar-se. Tendo um impacto significativo no seu sentimento de segurança, bem como, no seu crescimento pessoal.

É importante desmistificar o medo, passando a mensagem que é um sentimento normal e que todas as pessoas sentem ou já sentiram medo em diversas ocasiões da sua vida. Aproveite estes momentos para partilhar os medos que teve quando era criança e como os conseguiu vencer.

Estabeleça limites, regras e rotinas.

Para qualquer criança, para além da necessidade de sentir e vivenciar o amor incondicional dos pais, é também essencial sentir os limites, regras e rotinas para conseguir gerir as suas próprias emoções e ganhar autoconfiança. Assim, é imprescindível manter a disciplina e estabelecer rotinas sobre os horários de comer, dormir e acordar. Ao perceber que existe previsibilidade a criança irá sentir mais confiança também na hora de dormir. É importante também organizar e criar uma rotina relacionada com o deitar que poderá passar por um banho, ouvir uma história ou uma música relaxante.

Algumas coisas que ajudam a sentir segurança na hora de dormir.

Permita o uso de objetos que transmitam conforto e segurança (como os peluches ou um “spray anti-monstros”), assim a criança irá sentir-se acompanhada e tranquila, focando a sua atenção no objeto, e desviando o pensamento sobre os assuntos que lhe causam medo.
Deixe uma luz de presença acesa no quarto. A luz transmite um sentimento de controlo e poder sobre o espaço que a rodeia.
O quarto deve ser um espaço que dê segurança à criança, retire todos os objetos que possam causar algum receio e evite as sombras nas paredes (para qualquer criança uma sombra de um boneco rapidamente se transforma num monstro).
No momento de ir dormir, acompanhe a criança até à cama, mas não se deite com ela. Fique por perto e poderá ler uma história ou partilhar um momento positivo desse dia.
Garanta que vai estar por perto se for necessário e retire-se do quarto antes de a criança adormecer.

Evite atividades estimulantes na hora de dormir.

Para garantir uma boa qualidade do descanso noturno da criança é essencial manter bons hábitos de sono e adotar comportamentos que não sejam demasiado estimulantes antes de dormir, como ver televisão, jogar tablets ou até ingerir bebidas ou comidas açucarados. O acesso à televisão, a imagens ou jogos na internet, por exemplo, poderá levar à criação de imagens mentais irreais e assustadoras, o que irá despoletar uma maior ansiedade na hora de dormir.

Valorize a criança por ser capaz de dominar os seus próprios medos.

É importante encorajar a criança para o sucesso, bem como valorizá-la, através do elogio e da partilha de afetos a cada conquista.

E, se não passar?

Esta fase costuma ser transitória, mas não existe um tempo determinado para que isso aconteça, pois depende do desenvolvimento emocional de cada criança. Entretanto, se a insegurança se prolongar, nomeadamente após os seis anos tornando-se num medo patológico, ou se os pais tiverem dificuldade de lidar com a situação, recomenda-se a procura de ajuda especializada.

 

Magda Alves -  Psicóloga CLínica

 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 01/04/2018