TRISTEZA E DEPRESSÃO: COMO SE DESCONFINA DO MEDO?

 

Quatro meses passados desde o início da pandemia, a palavra coronavírus passou a fazer parte do nosso dia-a-dia. A insegurança, a inquietação, a incerteza sobre o futuro são uma constante e, à medida que se vai interiorizando cada uma das medidas de higiene, também interiormente nida a tristeza da eventual perda duma vida sem máscaras, que não sabemos se ou quando vai voltar. E como falar de tristeza parece tantas vezes sinónimo de falar de depressão, importa esclarecer um pouco sobre esta última.

O conceito de depressão tem a ver com tristeza, mas não só. Todos nos sentimos tristes às vezes (os chamados “dias maus”), mas nem por isso estamos ou corremos o risco de ficar deprimidos. A depressão é uma doença mental constituída por um núcleo de tristeza, desesperança e perda total ou parcial de prazer nas atividades que antes eram agradáveis, núcleo este associado a alguns dos seguintes sintomas adicionais: apatia ou indiferença, lentificação do pensamento, dificuldades de concentração, pensamento dominado por ideias negativas, sentimentos de culpa (muitas vezes desproporcionados) e de não se ser válido ou necessário, desleixo no cuidado pessoal, falta de energia e de vontade para fazer as tarefas do dia-a-dia (“só apetece estar na cama”), isolamento social, insónia, perda de apetite, perda de peso sem estar a fazer uma dieta para esse efeito, perda do desejo sexual e ideação suicida. Na depressão estes sintomas vão invadindo todas as áreas de vida da pessoa até a impedirem de fazer a sua rotina normal.

Alguns estudos realizados durante os últimos meses demonstram já uma relação entre a pandemia e o maior aparecimento de sintomas depressivos, insónia e ansiedade. Pappa et al, numa revisão sobre o efeito da pandemia em profissionais de saúde, demonstrou um aumento de alterações do humor em enfermeiras e uma maior taxa de insónia nos técnicos de saúde em geral. Um estudo realizado na Turquia (Ustun, 2020) demonstrou taxas mais altas de sintomas depressivos em mulheres entre os 18 e os 29 anos, solteiras, estudantes, com menores rendimentos, bem como em indivíduos que foram sujeitos a isolamento durante pandemia. Neste estudo, a sintomatologia depressiva foi menor nas pessoas que, podendo permanecer com a sua família, tiveram menor carga de trabalho e mais tempo para si próprias. Estes dados realçam o impacto de vários aspetos ambientais no desenvolvimento de sintomas depressivos e ansiosos: o isolamento e a solidão, por um lado e, por outro, a sobrecarga laboral e familiar associada à falta de tempo pessoal.

Geralmente os sintomas depressivos que aparecem associados a um stressor remitem quando a pessoa faz tratamento e o stressor é retirado, o que no caso deste coronavírus apresenta um entrave evidente: é imprevisível quando é que tudo voltará a ser estável e familiar. Numa sociedade pós-modernista, erguida sobre a glória da tecnologia, da comida rápida e de todo esse comboio de clichés, o confinamento apareceu como um apeadeiro forçado e inquieto, quer porque obrigou a uma impossível divisão entre o (tele)trabalho e o cuidado aos filhos devolvidos pelas escolas, quer porque nos sentou no sofá da sala despido dos afetos dos amigos e da família, ou ainda porque adensou as relações interpessoais que sobreviviam à custa das atividades extra-domésticas... este vírus trouxe para muitos, de forma mais ou menos clara, um tempo de encontro com o “o quê, como e para quê” existencial, fruto da lembrança de que somos mais frágeis e perecíveis do que um organismo microscópico e que a morte (nossa e dos que fazem parte de nós) espreita quando menos se espera.

É muito importante realçar que existe tratamento para a depressão e os medicamentos usados permitem, numa larga maioria dos casos, manter as rotinas habituais desde praticamente o início do seguimento. A depressão é uma doença como as outras (diabetes ou hipertensão), não se cura por “força de vontade” ou “derrotando a preguiça”. Urge combater o estigma associado à doença mental e perceber que as patologias psiquiátricas têm bases biológicas que tem vindo a ser progressivamente melhor compreendidas. Atualmente existem tratamentos que permitem que as pessoas vivam mais e melhor.

Como reflexão pessoal, pergunto-me como se sobrevive à depressão em época COVID-19 (ou, como ouvi alguém perguntar, “como se desconfina do medo”?). Há muitas estratégias de combate aos sintomas depressivos que se encontram em todos os cantos das redes sociais, mas parece-me que procurar novas formas de nos comunicarmos remota e localmente e saber pedir ajuda (também a especializada) podem ser pontos a realçar. Um outro aspeto poderá ser aproveitar a pausa forçada deste silêncio e abrir espaço para valorizar o tempo com as pessoas que amamos, a beleza da natureza e da arte, o trabalho com significado... estas são coisas que quando as nossas vidas são ameaçadas temos a possibilidade de reaprender a apreciar e que podem ajudar-nos a redefinir prioridades que até aqui não tínhamos tido tempo para entender estarem desordenadas. Retirado todo o ruído afetivo, o que é que realmente, no fundo, importa? Essa, para mim, pode ser a pergunta salvadora. Talvez parando nesta questão possamos redirecionar o olhar para a noção de que, se o vírus nos trouxe uma maior noção da nossa fragilidade e vulnerabilidade, não nos trouxe menos a percepção de que estamos todos juntos nisto; é enraizados nessa conexão humana que tudo acabará, de facto, por ficar bem.

 

Estudos citados

• Pappa S., Ntella V., Giannakas T., Giannakoulis V.G., Papoutsi E., Katsaounou P. Prevalence of depression, anxiety, and insomnia among healthcare workers during the COVID-19 pandemic: a systematic review and meta-analysis. Brain Behav. Immun. Maio 2020. doi: 10.1016/j.bbi.2020.05.026. S0889-1591(20)30845-X.

Gonca Ustun. Determining Depression and Related Factors in a Society Affected by COVID-19 Pandemic. Int. J. Soc. Psychiatry. Junho 2020. doi: 10.1177/0020764020938807.

 

 

Rute Cajão – Pedopsiquiatra 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 16/08/2020