NÃO APRENDEMOS NADA COM A PANDEMIA? E AS CANÇÕES NAS CABEÇAS DE CADA UM

 

Primeiro vieram-nos à cabeça só perguntas. Onde deixar as crianças? Será agora que faço limpezas, arrumo gavetas ou ponho em ordem leituras? Depois pensámos que teríamos tempo e não foi assim. Chegou-nos o desconhecido pandémico. Com esperança, imaginámos que poderíamos sonhar um mundo melhor. Chegaram canções à nossa cabeça e houve mesmo quem cantasse Imagine de John Lennon, cheio de ânimo entre os bateres de palmas das 20h, os arco-íris das crianças nas janelas, as videoconferências, os lives artísticos e tantas outras coisas que nos encheram o coração. Certo é que de coração cheio não sentimos tanto o sufoco. Fomos confiando nas comunicações da DGS e do mundo que, como um farol, iluminaram para alguns o caminho e os passos a seguir. E o tempo passou, porque passa sempre. Chegaram as notícias dos infetados. Bateu-nos à porta o medo e a angústia. A mesma do regresso à vida voltada de pernas para o ar. E voltámos a agir, sem interiorizarmos o que nos ficou desta experiência.

Ouvi testemunhos de crianças isoladas em instituições, necessitando tranquilizar-se num beijinho ao anoitecer, que nunca chegou. Chegaram-me os silêncios desconsolados dos pais que perderam os seus rendimentos ou que, ao manterem-se a trabalhar arduamente, tiveram de se dividir e fingiam estar calmos para tranquilizar os seus filhos, identificando-se com o The Great Pretender de Freddie Mercury.

Escutei a insegurança dos professores, assentes na incerteza dos despachos e Decretos-Lei, procurando novas estratégias, tentando proteger-se da exaustão. Em setembro, nas escolas vazias e silenciosas, encontrei-os, uns reunidos criativamente ao ar livre, outros paralisados pela crença que circulava: “estaremos todos em casa no fim do mês!”. Tudo vivido como a nova normalidade. A vida continuava diferente desde há meio ano. e a negação, ou mesmo a clivagem, mecanismos de defesa fraturantes que permitem a criação de uma ilusão de apenas uma parte alternada (a boa ou a má) foi eleita por muitos para aguentar o regresso. Obedecendo demais ou gritando exageradamente numa revolta, talvez, também já não pensada.

E a Chaconne de Bach continuava a tocar, pelo menos, na minha cabeça. Numa repetição de 15 minutos, pouco variada, mas incrivelmente intensa em cada arcada no violino.

Onde nos ficou a criatividade que nos fazia rir no início da pandemia? Onde estão os grupos que se juntaram na cooperação? Onde ficaram as promessas de que daríamos mais atenção aos filhos, não trabalharíamos sem foco, seriamos mais solidários, iniciaríamos dietas que seguiríamos de facto, trataríamos da nossa paz de espírito? A Donde Van? de Sílvio Rodriguez.

Será mesmo que não existiu flexibilidade? Não sobrevivemos às adaptações que fizemos, com mais ou menos queixa, mais ou menos máscaras? Foi apenas por instinto de sobrevivência? Não foi verdadeira a cooperação nas palmas batidas? São os padrões repetidos e o fechamento, aos outros ou a nós próprios, que nos levam a adoecer. É o que acontece na depressão, fechada numa impossibilidade de reinvenção. Ou na ansiedade, em que nada se pensa verdadeiramente.
Ainda precisamos de ser criativos, avançar enquanto humanidade. Ainda precisamos de tranquilizar as crianças amedrontadas que não querem sair de casa, ou as (ainda) mais maltratadas precisamente por não terem saído de casa. Ajudar os jovens, que pensam menos, e precisam do contacto com os pares. Confortar os velhos entregues ao desamparo e ao trauma da solidão. Será que todos podemos contribuir para essa vida mais solidária, mais autêntica, mais criativa e consciente após pandemia? Desenvolveremos, nas escolas, as tais competências transversais e as aprendizagens fundamentais?
A escritora Rosa Montero ofereceu a sua companhia, em vídeos seguidos por milhares de leitores, que agradecidos, responderam com dois livros de contos, resultantes desses encontros. Um belo exemplo de possibilidades.

Talvez precisemos de nos tratar melhor a nós próprios. Em recolhimento, percebermos o que precisamos para nos fazermos bem, enquanto pessoas sozinhas e em conjunto. Que a nossa clausura sirva para nos salvar enquanto Humanidade: So remain, faith, hope and love, these three. But the greatest of these is Love (Song for the Unification of Europe, de Zbigniew Preisner).
Já agora, que canções chegam às vossas cabeças?

 

Helena Raposo - Psicóloga Clínica 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 6/12/2020