A IMPORTÂNCIA DA INTERAÇÃO/COMUNICAÇÃO NOS TEMPOS DE COVID-19

 

Há cerca de um ano e meio vimos o mundo mudar radicalmente e nós sem estarmos preparados para tal. Em março de 2020 fomos “mandados” para casa e “obrigados” a experienciar novas rotinas diárias como o teletrabalho e a telescola. Toda esta nova realidade veio afetar a estrutura familiar e, principalmente, os hábitos tão bem programados até então. O COVID-19 trouxe grandes desafios às famílias portuguesas, principalmente àquelas com crianças e adolescentes. Mas, com todos estes novos desafios, será que parámos para pensar no impacto que a pandemia tem/teve no desenvolvimento da comunicação das nossas crianças?

A comunicação é um processo interativo onde existe troca de informações entre dois ou mais intervenientes. Deste modo, ao comunicar, a criança vai mantendo interações com o meio ambiente que a rodeia, permitindo assim desenvolver capacidades e competências cognitivas, motoras, sensoriais e sociais.

Sabemos que passar tempo com os pares é essencial para o desenvolvimento da criança, contudo, com o encerramento das creches/escolas e todas as medidas de distanciamento social, as relações sociais, as partilhas e sobretudo as brincadeiras acabaram por ser bastante limitadas e, neste sentido, as crianças viram-se forçadas a adaptar-se e ajustar-se a esta nova realidade. Deste modo, a permanência em casa, assim como a limitação das atividades ao ar livre vieram condicionar o contacto físico e a socialização das crianças com os seus pares, acabando por criar lacunas importantes na comunicação.

Além do encerramento das creches/escolas, outro aspeto que teve/tem bastante impacto na comunicação/interação das crianças, é a exposição de forma excessiva do uso de telemóveis, tablets e computadores, durante a altura dos confinamentos. Com os pais em teletrabalho e muitas vezes a terem de partilhar o mesmo espaço para trabalhar, inconscientemente, oferecem os telemóveis às crianças para estas estarem “sossegadas” e ocupadas enquanto os pais trabalham.

Será que o uso excessivo das novas tecnologias tem influência no desenvolvimento da comunicação?

Sim, esta exposição solitária veio acentuar as dificuldades em lidar com os pares, assim como, a regressão em termos linguísticos, uma vez que as crianças passam grande parte do tempo sozinhas e/ou agarradas ao ecrã, sem qualquer tipo de estimulação ou interação por parte dos pais.

Com a pandemia, as crianças ficaram mais vulneráveis e individualistas, acabando por não saber brincar, nem interagir com os seus pares. Com o voltar à normalidade, é essencial modificarmos este tipo de comportamentos.

Desta forma, deixamos aqui várias estratégias que podem ajudar os pais a comunicar com as suas crianças, colmatando assim estas lacunas:

  • Aproveite todos os momentos para conversar com a criança, de forma a estimular a comunicação e a linguagem;
  • A seguir ao trabalho dedique um tempo exclusivo para a criança e aproveitem para fazer jogos ou puzzles;
  • Enquanto cozinha, chame a criança para perto de si e pergunte-lhe o que viu na televisão, pedindo-lhe para recontar um episódio dos seus desenhos animados favoritos (por exemplo);
  • Ao deitar, leiam um livro em conjunto e no dia seguinte pode-lhe fazer perguntas sobre o mesmo;
  • Se possível, aproveite o bom tempo ao ar livre e vá até ao parque. No caminho pode fazer vários jogos que estimulem a comunicação e a linguagem. Como por exemplo: “adivinha o que estou a ver”.

Ainda vamos a tempo de mudar...

 

Patrícia Jerónimo - Terapeuta da Fala do CADIn 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 08/08/2021