A LINGUAGEM, LEITURA E ESCRITA: QUE RELAÇÃO?

 

A linguagem é a forma que permite ao ser humano receber e transmitir informação, ou seja, comunicar (desejos, necessidades, pensamentos) e envolve três grandes componentes:
- a forma (como se diz) - fonologia, morfologia e sintaxe;
- o conteúdo (o que se diz) - semântica/léxico;
- o uso (onde se diz) - pragmática.
É a combinação, manipulação e integração destes três componentes que permite desenvolver a capacidade de compreender e expressar.

A linguagem tem uma importância extrema no desenvolvimento da criança, uma vez que promove todas as suas aprendizagens e aquisições, sendo que uma estimulação precoce da linguagem pode prevenir dificuldades de aprendizagem, já que aprender a ler e a escrever inicia-se desde o momento em que a criança desenvolve a fala e a linguagem e é um pré-requisito essencial.

Há uma relação entre a linguagem oral e escrita, sendo que a linguagem, a leitura e a escrita desenvolvem-se ao mesmo tempo, encontrando-se interligadas, mas independentes entre si.

A linguagem oral surge de forma espontânea, enquanto a escrita é aprendida e a criança terá de conhecer e dominar um sistema de letras (grafemas) que serão responsáveis por codificar os sons da fala (fonemas).

É muito importante que as crianças entendam que a escrita representa os sons da fala, contudo para umas é mais difícil porque nem sempre há um relação unívoca, ou seja, nem sempre todos os grafemas representam apenas um único fonema.

É fundamental, por isso, que as crianças aprendam a ortografia para perceberem que a escrita não representa os sons da língua, de forma biunívoca, mas que os sons da fala pertencem à oralidade, enquanto as letras pertencem à escrita.

É preciso dar tempo à criança e ajudá-la a fazer esta relação da oralidade com a escrita, ainda antes de entrar para a escola e é essencial que levem a criança a perceber que os sons da fala podem escrever-se com letras.

A escrita corresponde a uma representação da linguagem oral, mas não é “desenhar” os sons em forma de letras e fazer uma mera associação entre letras e sons. É essencial que a criança perceba que, apesar de existir uma relação entre falar e escrever, quando escrevemos, organizamos o discurso de outra forma e que a escrita possui características próprias.

Quando existem dificuldades ao nível da compreensão e/ou da expressão da linguagem, que pode envolver a forma, o conteúdo e/ou o uso da linguagem, estamos perante uma Perturbação de Linguagem (PL).

A PL é a fragilidade de desenvolvimento mais comum durante a infância e diversos estudos demonstram que crianças com dificuldades na linguagem, nos primeiros anos de escolaridade, têm maior probabilidade de apresentar PL nos anos de escolaridade subsequentes, ou seja, é indubitável a relação que existe entre a PL, as dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, o sucesso escolar, uma vez que as crianças são condicionadas no acesso à informação.

As dificuldades associadas à PL podem repercutir-se a nível do desempenho do aluno no processo de ensino-aprendizagem tendo como comorbilidade uma perturbação específica da aprendizagem (dislexia e/ou disortografia). Nem todas as dificuldades de leitura e escrita são consideradas dislexia e disortografia e não é por uma criança trocar dois ou três sons na escrita e fazer alguns erros ortográficos que terá necessariamente alguma dessas perturbações específicas da aprendizagem. A dislexia é uma perturbação específica da aprendizagem caracterizada por dificuldades na precisão e ritmo da leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica, resultando num défice fonológico. A maior parte das crianças que têm dislexia também apresentam disortografia, no entanto, a disortografia pode ocorrer de forma isolada.

Em suma, a linguagem oral, constitui uma base fundamental para o desenvolvimento da aprendizagem da leitura e da escrita. Por isso, se a criança tiver desenvolvido a sua linguagem harmoniosamente, muito provavelmente irá ter mais facilidade na aprendizagem da leitura e escrita.

 

Filipa Mendão - Terapeuta da Fala do CADIn 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 21/11/2021